Caso Ana Clara: violência foi vista como legítima para impor submissão, diz polícia sobre irmãos que deceparam mãos de mulher

  • 13/05/2026
(Foto: Reprodução)
Vídeos mostram diálogo entre irmãos que deceparam mão de jovem: ‘Tu matou?’ Os irmãos Ronivaldo Rocha, de 40 anos, e Evangelista Rocha, de 34 anos, presos após atacarem a namorada de Ronivaldo com uma foice, acreditavam que a violência era uma forma de impor à mulher "submissão e respeito" aos investigados, conforme apontado pelo inquérito da Polícia Civil do Ceará. A constatação da Delegacia Municipal de Quixeramobim foi feita a partir da análise de áudios enviados pelos suspeitos após a tentativa de feminicídio contra Ana Clara de Oliveira, de 21 anos. O diálogo foi obtido pela polícia após a quebra do sigilo do telefone dos agressores, autorizada pela Justiça. ➡️Clique aqui para seguir o canal do g1 Ceará no WhatsApp "Especialmente relevante é o conteúdo do áudio em que Ronivaldo afirma: 'era só ter dado umas mãozadas nela pra ela respeitar as cara', revelando de maneira absolutamente clara que a violência física contra a vítima era encarada pelos investigados como mecanismo legítimo de imposição de submissão e respeito", disse a polícia no inquérito. Para os investigadores, Ronivaldo tinha profundo sentimento de objetificação e posse sobre Ana Clara, que era tratada por ele "como verdadeira extensão de sua vontade e domínio". Além disso, ele não aceitava qualquer resistência da vítima de quebrar esse ciclo. "Tal trecho demonstra não apenas ciência integral acerca da execução criminosa, mas verdadeira naturalização das agressões físicas contra Ana Clara, evidenciando contexto contínuo de violência doméstica e aceitação da utilização de violência extrema como forma de controle, dominação e punição da vítima", afirmou a polícia em outro trecho. Além das mãos decepadas, Ana Clara sofreu cortes profundos em outras partes do corpo, como ombro, perna e cotovelo. Os golpes foram dados pelo cunhado Evangelista, a mando de Ronivaldo, que mantinha um relacionamento com a vítima há cerca de 2 anos. Os irmãos estão presos desde a data do crime. LEIA TAMBÉM: 'Era só ter dado umas mãozadas nela', afirmou homem para irmão que decepou mãos de mulher com foice Vídeos mostram diálogo entre irmãos que deceparam mão de jovem: 'Tu matou?' Jovem que teve mãos decepadas por cunhado passa por novas cirurgias após deixar UTI Discussão antes do crime Investigação da polícia apontou que Ronivaldo Rocha, de 40 anos, matinha sentimento de posse sobre Ana Clara, de 21 anos, com quem se relacionava há cerca de dois anos. Reprodução A investigação apontou que, na noite de 1º de maio, horas antes do crime acontecer, Ana Clara e Ronivaldo haviam ingerido bebida alcoólica e iniciaram uma discussão. (Veja o vídeo acima) Em determinado momento da discussão, Ronivaldo decidiu sair de casa, o que fez Ana Clara acertar o carro dele com uma pedra. A discussão continuou no meio da rua e foi captada por imagens de câmeras de segurança. As imagens também mostram Ronivaldo correndo atrás de Ana Clara. Depois, ele desiste e vai embora. Cerca de 20 minutos depois, ele volta de carro, já com o irmão, Evangelista, que sobe o muro da casa. Câmeras de segurança captaram discussão entre Ana Clara, que teve as mãos amputadas, e o companheiro dela, Ronivaldo Rocha, suspeito do crime Reprodução O mais velho, então, entrega a foice para o mais novo, que se aproxima da janela onde Ana Clara estava e pede para a vítima abrir e conversar. Quando Evangelista entra, começam os ataques. Quando Evangelista sai de casa com a foice usada para decepar as mãos de Ana Clara, Ronivaldo pergunta: "Tu matou?". Evangelista responde: “Sim, já era”. Na sequência, Ronivaldo afirma: “não era pra ter feito isso não, macho” e “tu acabou com a nossa vida”, no que Evangelista rebate: "tu que mandou, já era”. Ana Clara foi socorrida após vizinhos ouvirem gritos de pedido de socorro e acionarem a Polícia e uma ambulância. Ela foi submetida a uma cirurgia de emergência de reimplante das mãos no mesmo dia e está em processo de recuperação. Os irmãos estão presos desde a data do crime. Indiciamento por tentativa de feminicídio Namorado e cunhado usaram foice para decepar mãos de mulher em Quixeramobim (CE) Reprodução Apesar dos golpes de foice terem sido executados por Evangelista, a Delegacia Municipal de Quixeramobim sustenta que Ronivaldo também é culpado pela tentativa de feminicídio uma vez que não só foi buscar o irmão para executar o crime, como chegou a entregar a foice que ele usou e, em determinado momento, chegou a gritar para Evangelista: "Pode matar ela, pode matar". Para a Polícia Civil, o diálogo "demonstra de forma inequívoca a plena ciência, adesão e participação direta de Ronivaldo na execução criminosa, além de revelar absoluta frieza e total ausência de qualquer preocupação com o estado da vítima, brutalmente mutilada e agonizando no interior da residência". Ainda segundo a Polícia Civil, "a conversa mantida entre os investigados evidencia que, mesmo acreditando ter causado a morte de Ana Clara, em nenhum momento houve qualquer manifestação de arrependimento, socorro ou preocupação humanitária com a integridade física da vítima". Conforme os investigadores, o retorno de Ronivaldo à casa, na companhia de Evangelista, teve "inequívoco propósito feminicida e clara premeditação criminosa". Além disso, para a Polícia, os gritos de ordem de Ronivaldo evidenciam "de maneira absolutamente inequívoca sua participação ativa como mandante da execução criminosa". Segundo a Delegacia de Quixeramobim, a Ronivaldo e Evangelista cometerem o crime de feminicídio tentado, com o agravante de utilização de meio cruel (foice) e recurso que dificultou ou impossibilitou a defesa da vítima. O indiciamento apresentado pela Polícia Civil agora vai para análise do Ministério Público do Ceará (MPCE), que pode apresentar uma denúncia contra os dois. O que disseram os irmãos O g1 teve acesso aos depoimentos de Ronivaldo e Evangelista. O último confessou o crime e deu detalhes do que acontece, enquanto o Ronivaldo, então companheiro de Ana Clara, destacou ter ingerido álcool e não lembrar da maior parte do que aconteceu. Segundo o relato de Evangelista, ele estava em casa, na madrugada da sexta-feira, quando Ronivaldo ligou e pediu que ele o acompanhasse à casa de Ana Clara para "conversar". Evangelista disse que levou, por conta própria, a foice que viria a ser utilizada no crime e afirmou que "já estava na maldade". À Polícia Civil, Evangelista informou que os gritos do irmão o influenciaram a atacar a vítima com os golpes de foice - que a atingiram primeiro no braço e depois nos outros membros. Ele disse ainda que deixou a casa de Ana Clara por acreditar que ela tivesse morrido com os golpes. Já Ronivaldo Rocha afirmou que a discussão com Ana Clara teria relação com as transferências bancárias que ela teria feito da conta dele para a dela, razão pela qual aparece em um dos vídeos das câmeras de segurança chamando a mulher de "ladrona". Na noite do crime, os dois teriam ingerido bebidas alcoólicas e, após uma discussão pelo dinheiro, ela teria quebrado um vidro do carro que ele dirigia. No resto do depoimento, porém, ele afirma não se lembrar de quase nenhum acontecimento, como o momento em que gritou "pode matar ela" para o irmão, cena captada pelas câmeras de segurança. Ronivaldo também negou ter combinado previamente com Evangelista a mutilação da vítima e afirmou não lembrar em que momento o irmão apareceu com uma foice. As imagens de câmeras de segurança, porém, mostram Ronivaldo entregando a foice a Evangelista. Ele também disse não lembrar do que conversou com o irmão no carro na volta para casa, após terem cometido o crime. Confira a cronologia do crime: 00h33: Câmeras de segurança da rua flagraram o casal brigando na rua; Ana Clara diz para Ronivaldo que ele não iria ficar na casa dela, enquanto ele a chama de "ladrona"; 00h37: Ronivaldo aparece correndo atrás da mulher e, ao se aproximar da esquina, grita 'tu vai me pagar'; pouco depois ele grita 'eu vou te matar'. 00h57: Os irmãos retornam à casa de Ana Clara em uma caminhonete. 00h58: Evangelista Rocha dos Santos escala a casa da vítima. 01h00: Evangelista discute com a vítima que argumenta enquanto ela chora: 'ele pode beber, eu não posso beber'. 01h01: Depois Ronivaldo ordena ao irmão: 'Pode matar ela, pode matar'. Depois, é possível ouvir pancadas e gritos ao fundo. 01h01: Em cima da caminhonete, o Ronivaldo grita: 'tu quebrou o vidro do meu carro, tu vai me pagar’. 01h02: Ele chama várias vezes pelo irmão, que está dentro da residência. 01h02: Ronivaldo pergunta: "Evangelista, tu matou? Não era pra ter feito isso, não. Tu matou? Acabou com nossa vida". O irmão sai da casa e diz: "Já era, acabou. Já era, vamos embora" 01h03: Dá para ouvir Evangelista falando “já era, foi tu quem mandou”, e depois entregando a foice utilizada no crime; enquanto Ronivaldo diz. ‘Eu sei, não era pra ter feito isso não’ 1h04: Os dois deixaram a casa, seis minutos depois de chegarem ao local. À esquera, namorado corre atrás de Ana Clara. À direita, irmão dele escala parede para invadir residência e praticar crime Reprodução Vítima passou por três cirurgias Entre a sexta-feira, 1º de maio, e segunda-feira (11), Ana Clara de Oliveira passou por três cirurgias no hospital Instituto Doutor José Frota (IJF), em Fortaleza, onde está internada desde o dia do crime. Ainda na sexta, ela foi submetida a uma cirurgia de emergência de 12 horas para reimplante da mão. A cirurgia contou com a atuação de aproximadamente 15 profissionais, incluindo equipes especializadas em microcirurgia e cirurgia da mão. O procedimento foi considerado bem-sucedido, e o fluxo sanguíneo do organismo para a mão reimplantada voltou a acontecer. Ana Clara deixou a UTI sete dias após a cirurgia de reimplante e foi para a enfermaria. Ana Clara foi atacada na sexta-feira (1º). Reprodução Já no sábado (9), ela precisou passar por uma cirurgia após a equipe médica constatar que o dedo mindinho da mão esquerda reimplantada não estava com fluxo sanguíneo. A intervenção cirúrgica durou cerca de 8 horas. Nesta segunda (11), ela foi submetida a uma cirurgia que já estava programada para recuperação do tendão da perna, que havia sido cortado pelos golpes de foice - além da amputação de uma das mãos e da lesão grave na outra, Ana Clara sofreu cortes profundos em outras partes do corpo, como ombro, perna e cotovelo. Ela agora vai passar a semana em observação da equipe médica para avaliar a necessidade de possíveis intervenções cirúrgicas de transplante de pele em pontos onde tenha ocorrido necrose. Após a cirurgia de reimplante, a jovem já chegou a apresentar alguns movimentos, mas precisará fazer fisioterapia para se recuperar totalmente. Assista aos vídeos mais vistos do Ceará:

FONTE: https://g1.globo.com/ce/ceara/noticia/2026/05/13/caso-ana-clara-violencia-foi-vista-como-legitima-para-impor-submissao-diz-policia-sobre-irmaos-que-deceparam-maos-de-mulher.ghtml


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